DEBATENDO SOBRE ADOLESCÊNCIA

Pais, filhos, suas aberturas e fechamentos.

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................Referindo-se ao título do livro: Para que os jovens da contemporaneidade estão mais abertos e para que eles estão mais fechados?
................Inicialmente vale atentar para o cuidado que devemos ter com a tendência a generalizarmos, como se todos os jovens fossem iguais . A geração atual certamente está muito receptiva (aberta) às mudanças tecnológicas como os celulares e a internet, que são instrumentos de conforto e velocidade e, em decorrência disto não sabe esperar, vive numa época em que tudo é instantâneo.
................Antigamente as pessoas escreviam cartas, aguardavam ansiosamente pela resposta que demorava, no mínimo uma semana para chegar, por exemplo. Hoje, com o advento e a expansão da internet a comunicação é imediata e a atenção dividida, o jovem faz várias coisas ao mesmo tempo, conecta-se virtualmente com muitas pessoas enquanto ainda ouve música. Sua atenção fica dividida, partilhada, e em nenhuma das interações ele está inteiramente presente, inteiro! Entretanto, aumenta a sua experiência e seu prazer: tem mais parceiros, mais vivências e trocas sexuais e afetivas. Como se tivesse desqualificado a máxima que pertencia ao passado: até que a morte os separe, substituindo-a por até que meu próximo parceiro nos separe. Concluindo a ideia: mais abertos ao prazer, à rapidez, ao individualismo, à tecnologia, à divisão da atenção e mais fechados para a espera, a paciência, para rela ções duradouras .


................Quais são os prós e contras dessas transformações?
................Toda transformação traduz num primeiro momento resistência, justamente pelo novo, que é sentido inicialmente como ameaçador; entretanto a mudança gera crescimento e mobiliza maiores transformações. A adolescência é a época de estabelecimento da identidade da pessoa, de uma atitude reivindicatória, de lutas por independência, de marcada necessidade de agrupamento social, e é esperado o surgimento de conflitos entre pais e filhos. A avalanche de informações acaba por ser mais um elemento nessa relação potencialmente conflituosa e criativa, exigindo mentes transformadoras de ambas as partes. Destaca-se que todo o processo de desenvolvimento implica em trocas e aprendizagens constantes, em que todos ensinam e aprendem. Sendo assim os jovens podem ensinar aos mais velhos o uso da tecnologia a seu favor, por exemplo, enquanto os mais velhos podem transmitir sua vivência e o resgate de aspectos importantes de sua história.
................Quando ouvimos pais de adolescentes, temos a sensação de que eles, da mesma forma que seus filhos, esperam ser ouvidos e compreendidos instantaneamente. No entanto, provavelmente esquecem que o jovem expressará primeiro resistência, oposição, mas, quando ele estiver sozinho ou com seus amigos, aí sim é que refletirá sobre o que lhe disseram os adultos. É preciso dar tempo um ao outro, para que pais e filhos processem tantas informações sobre como exercer a liberdade, a responsabilidade, para que ocorra a preparação para a vida adulta.


................Do que o jovem sente falta hoje no ambiente doméstico e na relação com os pais?
................Os jovens pedem mais presença física dos pais, pois a modernidade acelerou o ritmo de vida, a competitividade, a carga horária de trabalho dos pais, que se envolvem cada vez mais no FAZER e acabam tendo menos tempo para SENTIR suas relações em família. Sem o tempo de estar ao lado, não haverá tempo para, calmamente, fazer uma pergunta difícil, indiscreta, ou contar medos, erros, dúvidas, questionamentos.
................Na verdade, os adolescentes também precisam ver em seus pais modelos de pessoas em busca de bem-estar e felicidade, senão, para que crescer e amadurecer? Para que ser feliz ou infeliz? Para que trabalhar com prazer ou com amargura? Como sempre, muito mais os jovens vêem e absorvem aquilo que os pais demonstram em suas atitudes, do que aquilo que falam.


................A questão dos limites é hoje muito discutida. Quando o jovem quer ultrapassá-los a todo custo, o que isso significa?
................Adolescer pressupõe adentrar um mundo novo que não é mais o infantil (no que se refere ao corpo físico, valores, pensamentos, etc.) e nem tampouco o mundo adulto, que é desejado e temido. Não há como crescer sem se rebelar, pois isto pressupõe pensar diferente, discriminar-se como um novo ser, definir o adulto que deseja se tornar, adulto que não será clone de seu pai ou de sua mãe, mas um ser diferenciado destes.
................Minuchin afirma que os pais não podem proteger e guiar , sem ao mesmo tempo controlar e reprimir. Os filhos não podem crescer e se tornar individualizados sem rejeitar e atacar. Esta afirmação justamente reflete a constatação de que os processos educativos e de socialização pressupõem a administração de conflitos para pais e filhos, já que o NÂO dos pais geralmente implica pouca aceitação dos filhos para os limites e restrições que são inerentes ao crescimento. Na adolescência o jovem tem mais condições de argumentação do que na vida infantil, e por este aspecto os conflitos podem se tornar mais frequentes. E isso não é um mau sinal: pelo contrário! Indica crescimento, uma relação que se expõe para por à prova seu amadurecimento, seus questionamentos e discordâncias. Assim, podem formar opiniões mais consistentes sobre si mesmos e sobre o mundo. O jovem espera encontrar pais que lhe dêem limites, ou seja, adultos que, por sua vez, tenham suas opiniões consistentes sobre si mesmos e sobre o mundo.
................Os pais ocupam uma posição hierárquica superior, por serem mais velhos e mais experientes, são os que mandam. Os filhos vivem na casa (mesmo espaço) e têm que se responsabilizar por estarem ali, contribuir com a organização da casa e a divisão de tarefas. Alguns aspectos podem demandar negociações enquanto outros não.
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Da mesma forma que há pais conservadores (fechados) para acompanhar as imensas mudanças deste novo tempo, também há aqueles que se antecipam em mudanças. A opinião que os filhos têm sobre seus pais é muito variável, e o grau de abertura às mudanças precisa de sintonia entre pais e filhos. Os extremos (abertos demais ou fechados demais) parecem ser mais difíceis de lidar, seja pela ausência de regras ou pela rigidez extremada.
................É interessante que quando há pais extremamente abertos (liberais, permissivos), isto geralmente gera inveja no jovem que assiste de fora ao fato (desejando que ele também pudesse usufruir de tamanha liberdade). No entanto, para o jovem que vive dentro desta família, a sensação pode ser de abandono, falta de proteção e talvez até de não se sentir amado.
................Amar, enfim, pressupõe dizer sim e não. Estes dois aspectos é que vão possibilitar a estrutura para sentir segurança e enfrentar todo o tipo de adversidade que, independentemente dos pais não desejarem para seus filhos, sempre farão parte da vida de qualquer ser humano.
................O mais difícil e que precisa ser perseguido é o equilíbrio, em que pais e filhos se abram para aprender e ensinar uns com os outros, balanceando o Não e o Sim, de acordo com as situações.
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Há casos em que os jovens reclamam que os pais dão abertura demais, ligam de menos para eles e parecem não participar do seu mundo... Isto denomina-se negligência e ela é danosa, pois monitorar (cuidar, saber onde o filho está, com quem) é necessário. Deixar um filho adolescente solto pode fazê-lo sentir-se abandonado, não amado, não importante, sem referencial, sem proteção e orientação, como um navio sem bússola, à deriva, perdido. Riscos de vivências perigosas que às vezes podem contribuir para a transgressão social, depressão, vícios, suicídio......

................Qual o mínimo de atenção que um adolescente necessita e que muitas vezes é negligenciado pelos pais?
................Que os pais olhem para seu rosto, indaguem sobre seus sentimentos, valorizem seus esforços, desejem conhecer e conversar com os amigos de seus filhos, indaguem sobre os planos de seus filhos e não só cobrem ordem com o quarto e chequem seu desempenho acadêmico, por exemplo. A atenção ao grupo de pares (colegas e amigos), por parte dos pais é de extrema importância. Conhecer quem são os amigos de seus filhos, do que gostam, quem são seus ídolos, o que fazem, o que pensam é imprescindível. Para isto não basta olhar fisicamente para seus rostos e corpos, é necessário ouvi-los, aproximar-se deles. Há uma estudiosa, E.Harris, que defende a ideia polêmica de que os grupos são mais poderosos do que os próprios pais no que se refere às influências para o desenvolvimento sócio-afetivo do jovem. Independente de aceitarmos totalmente essa posição de Harris, concordamos na importantíssima influência dos grupos na vida das crianças e adolescentes. Então, é preciso “estar ligado” em quem são os colegas e amigos, para poder acompanhar, conhecendo tanto as boas como as prejudiciais e perigosas influências. Sempre vale ressaltar que álcool, cigarro e drogas , normalmente se iniciam na adolescência, muitas vezes motivados por estímulos dos pares.
................Na tentativa de serem bons pais, alguns evitam que seus filhos vivam frustrações e acabam satisfazendo demais as necessidades destes , o que os impede de se esforçar e de perseverar para conseguir atingir seus objetivos.
................Difícil e importante esta tarefa parental de abrir para dar afeto e também fechar para estabelecer regras e limites, sem negligenciar ou sufocar, sabendo o momento da abertura e do fechamento...

................Como os jovens devem proceder para expressar melhor seus verdadeiros sentimentos em casa, na escola e com os amigos, visando ser melhor compreendidos e respeitados em suas posturas?
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Valendo-nos da abordagem sistêmica, pensamos que há co-responsáveis. Então é tarefa de pais e filhos a expressão dos sentimentos e não de uma das partes, apenas. Crescendo em um lar onde pais falam de seus próprios erros e acertos, há modelo para que os jovens também se expressem. O que os jovens precisam saber é que na escola, em casa e com amigos eles têm oportunidades de aprendizagens tanto positivas quanto negativas. Que os jovens consigam então, o discernimento para se fechar e ouvir sua voz interior (pensamentos, intuições, sentimentos), não perdendo valores básicos, como justiça, respeito, amor, alegria, generosidade... E que se abram sempre para tudo o que promova renovação, trocas, encontros, comunicação e afetividade. Deste modo estarão investindo no que de fato importa - em SER MELHORES PESSOAS!


................Esta reflexão foi suscitada pela leitura do Livro ABERTOS e FECHADOS de Vera Miranda, Curitiba. Ed.Juruá, 2008.


Vera Regina Miranda
Psicóloga, Psicoterapeuta, Professora Universitária,
Mestre em Psicologia da Infância e Adolescência,
Escritora.